Cinépolis: Salve Geral!

Postado por Adriano Martins em 16.2.10

Por Veny Santos

Sérgio Rezende tem em sua filmografia constam obras como Zuzu Angel, Mauá - O Imperador e o Rei, Guerra dos Canudos, etc. Percebe-se que o cineasta brasileiro trabalha já há um tempo com filmes baseados em histórias reais e em Salve Geral a coisa não foi diferente. Lançado em 2009 o filme estava cotado para representar o Brasil no Oscar, mas infelizmente não conseguiu seu lugar na disputa pelo prêmio. Contudo, já nasce aí uma grande curiosidade para com este filme, que mesmo sendo reconhecido como capaz de concorrer ao Oscar, não recebeu tanta divulgação em sua terra de origem.

Andréia Beltrão faz o papel de Lúcia uma viúva que para sustentar a si mesma e ao filho começa dar aulas de piano. Formada em direito, a professora se vê forçada a iniciar a pratica de sua formação acadêmica para ajudar seu filho Rafael (Lee Thalor), que cometeu um homicídio durante uma briga e foi condenado. Durante uma visita ao presídio, Lúcia conhece Ruiva (Denise Weinberg) uma advogada cujo cliente é nada mais nada menos que o Primeiro Comando da Capital (PCC). Sem saber deste detalhe Lúcia começa a fazer favores para Ruiva em troca de ajuda e facilidades para ver seu filho. Durante o desenrolar da história a mãe de Rafael se apaixona por um dos líderes da facção, porém o mesmo morre e daí em diante o “Salve Geral” começa a ser posto em prática. Em pleno Dia Das Mães, no ano de 2006, o PCC ordenou ataques a bancos, postos policiais e qualquer tipo de força civil que estivesse nas ruas, tudo em nome de sua reivindicação por Paz, Justiça e Liberdade.

Percebe-se neste filme que a principio a sociedade, em geral, é posta em cheque e vilão ou herói não recebem mais seus roteiros de como ser ou agir. Há uma clara mistura onde todos, por amor, por poder ou por vingança se submetem a atos criminosos achando que suas justificativas são totalmente aceitáveis. Este filme não é apenas um filme que retrata um acontecimento histórico (sim, histórico) da cidade de São Paulo, mas também faz seu papel de denúncia. Ele expõe um sistema falho dentro das penitenciárias e como a violência é de fato uma espécie de falta de criatividade do próprio ser. Quando as coisas tanto para polícias corruptos quanto para presos chegam a um nível insustentável eles simplesmente abandonam a capacidade de reflexão e apelam para as ações diretas, totalmente envolvidas numa onda de violência banalizada. Policiais morrendo sem nem ao menos ter noção de onde vieram as balas, presos que não estavam envolvidos no “Salve Geral” eram mortos dentro ou até mesmo fora da cadeia caso fosse vistos andando pela rua.

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A cidade parou, mas não só no sentido técnico da palavra, não só se tratando da infra-estrutura ou da movimentação econômica, ela parou de pensar e agir com destreza, com clareza. O medo e a desconfiança reinavam absolutos nesses dias de caos. Conversando com um amigo meu, nós promovemos um debate simples sobre o porquê de gostar ou não deste filme. Meu amigo em particular não gostou, disse que é mais um filme que mancha a imagem da polícia e faz com que a sociedade se afaste cada vez mais dos profissionais que fazem um trabalho honesto. Ao ouvir isso dele, refleti um pouco e pensei : Não acredito que o filme deprecie a imagem da policia, pois a sociedade tem que ter em mente o que é realmente um policial profissional , que honra sua corporação e ajuda a sociedade, ali no filme não há de fato policiais, há criminosos, de todos os níveis sociais, desde mãe desesperada, passando por advogada de facção até policiais que aceitam suborno.

Como eu havia dito, é um filme de denuncia e acredito que vocês ao assisti-lo vão ter também a possibilidade de refletir sobre ele, observar os múltiplos ângulos que o diretor aborda de um dia em que as atitudes não respondiam pelos atos, literalmente. É um filme que nos faz repensar sobre as estruturas fundamentais que constituem nossa sociedade. Se incomodar algumas pessoas, então isso é ótimo, já que é do incômodo que surge a vontade forte de achar uma solução para os males existentes. Evitar que amanhã possa ser mais um dia de “Salve Geral”.

Trailer




1 comentário

  1. Anderson Siqueira comentou:

    Ao invés de focar a trama no problema do sistema prisional e carcerário brasileiro, com suas máfias, corrupção etc., Rezende manipulou positivamente o público centrando a história em uma mãe desesperada, capaz de tudo para defender seu filho, preso em flagrante por assassinar uma jovem durante um racha.

    O etnocentrismo - visto na antropologia como indivíduos que tomam a sociedade em que vivem como a melhor e mais correta e desconhecem, muitas vezes, desmerecendo outros modos de vida, de pensamento, de cultura e religião - também foi usado por Rezende para mostrar o lado politicamente incorreto e as atitudes, muitas vezes tomadas como errôneas, de uma mãe em busca da liberdade e felicidade de seu filho, ainda que ele seja culpado.

    A crítica aos governantes e à polícia também está presente e eleva ainda mais a qualidade da produção. Vale lembrar que Salve Geral foi pré-selecionado para concorrer a uma das cinco vagas dos filmes que disputam o Oscar de melhor filme estrangeiro na premiação de 2010. O longa foi baseado em fatos reais e estreia hoje no circuito nacional.

    NOTA (0 a 5): 4,5
    ****

     

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