Cinépolis: Jean Jacques, dentro do Tibet, fora da China

Postado por Adriano Martins em 2.12.09

Por Veny Santos

Responsável pela obra "Sete Anos no Tibet" e "O nome da Rosa", o cineasta francês Jean Jacques Annaud incomodou o governo Chinês ao expor parte da realidade tibetana e da vida da Sua Santidade o Dalai Lama. Jean Jacques recebeu duas indicações ao César (prêmio anual francês que privilegia as produções européias) com os filmes "O nome da Rosa"(1986) e "O Amante" (1991),vencendo o primeiro. Mas o destaque que exponho aqui está em torno do filme "Sete anos no Tibet", que rendeu ao diretor a proibição de entrada na China devido às filmagens do filme.

Não é novidade que a China e o Tibet ainda não entraram em acordo ao se tratar da questão de reunificação e integração de territórios. Ou melhor, integração e submissão do Tibet em relação ao governo chinês. Em 1949 o Partido Comunista Chinês sobe ao poder e com isso começa a avançar com as investidas que dominariam o território tibetano. Claro que houve resistência, mas para não nos alongarmos tanto na questão histórica eis aqui um link com um texto sobre a questão: (A ocupação chinesa do Tibet). Vamos ao filme, que por sinal não agradou nem um pouco ao governo chinês.



Brad Pitt interpreta Heinrich Harrer, um alpinista austríaco que é preso durante a tentativa de escalar o 9º pico mais alto do mundo – Nanga Parbat. Deixou para trás a esposa que estava grávida e rumou à montanha na busca de alimentar seu ego. Sua prisão aconteceu quando a Inglaterra declarou guerra à Alemanha, Heinrich mesmo sendo austríaco foi considerado inimigo dentro do território inglês. Após varias tentativas de fuga ele finalmente tem êxito e encontra com um de seus parceiros de alpinismo, Peter Aufschnaiter que o acompanha até a cidade de Lhasa no Tibet. Lá, em meio a choques culturais e dificuldades para se comunicar, Heinrich começa a dar um novo rumo para sua vida e então conhece Sua Santidade o 14º Dalai Lama. A partir daí ele estabelece um forte laço de amizade com o líder espiritual e encontra nele um conforto para a enorme falta que sente de seu filho que vive na Áustria. Em meio a tensões políticas com o governo chinês e a responsabilidade de ajudar aquele povo, que o acolheu, a manter sua cultura viva, Heinrich reconquista com a ajuda do Dalai Lama o motivo pelo qual o faria deixar o Tibet e voltar para encontrar seu filho.

Lançar um filme como este a priori parece não causar um impacto político tão significativo. Digo isto porque me lembro de “Leões e Cordeiros” e não me lembro dos E.U.A. expulsando o diretor Robert Redford ou coisa do tipo. Cito como impacto a proibição da entrada do cineasta francês no território Chinês. Sua Santidade o Dalai Lama teve que assumir uma postura política que não faz parte das características e deveres que um Lama deve adotar em relação ao seu povo, na verdade ele deveria tratar apenas de questões espirituais, passando adiante os ensinamentos de Buda. Mas a forte ação militar e violação dos direitos humanos executadas pela China o inseriram no mundo político, buscando abrigo na Índia e aprendendo ao máximo sobre questões sociais relacionadas aos direitos de uma nação independente. Independência esta que a China não concedeu. O diretor Jean Jacques consegue realizar uma ponte sutil entre a frieza e hierarquização da realidade política de ambas as nações e o sentimento de cumplicidade e humildade que ronda em torno da imagem do Dalai Lama e seu povo. Em meio a questões de suma importância para o desenvolvimento do Comunismo Chinês, o cineasta mostra por que o Tibet resiste à entrada das tropas “inimigas”. Existe ali uma luta não só por terras e aceitação de um sistema em ascensão, mas também uma luta pelo direito de preservar uma cultura que se estruturou de maneira organizada sem invadir ou desrespeitar qualquer outro governo.

No filme Sua Santidade ainda é uma criança, mas se vê diante de dilemas muito complexos e mesmo não sendo capaz de realizar com segurança os trâmites políticos, mostra que os ensinamentos de Buda estão presentes em todas as esferas da sociedade, basta que se desenvolva a capacidade de zelar pela vida do outro, cessando o sofrimento. O filme me permitiu visualizar de maneira direta, muitos trechos de um livro que li recentemente, chamado "Sua Santidade o Dalai Lama – Caminho da Sabedoria, caminho da Paz", e despertou em mim a necessidade de dissertar sobre a obra de Jean Jacques. Obra esta que revive em nossas mentes uma forte tensão ainda existente no mundo, uma vergonha para um país que prefere exilar pessoas ao invés de aceitar que estas convivam em paz dentro de sua realidade.

Trailer



1 comentário

  1. Felipe_X comentou:

    Sete anos no Tibet é um ótimo filme, que apesar dos pesares pro rigoroso governo Chinês, conta uma linda história.

    Bom texto, Veny!

    Abraço

     

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