Cinépolis: O AntiCristo de Lars Von Trier

Postado por Adriano Martins em 19.11.09

Olá, Cinéfilos!

Mais uma estreia aqui no Cinemando (Outra? Sim!). Veny Santos, o novo colaborador do blog, terá a coluna Cinépolis como seu espaço para análise de filmes, diretores, gêneros e etc. Ou seja, mais conteúdo sobre cinema para vocês. Espero que todos gostem - Boa sessão!

Por Veny Santos

Nascido em Kobenhavn em 30 de abril de 1936, Lars Von Trier é conhecido hoje por seus filmes que caracterizam bem seu estilo próprio e a preocupação em fazer um bom filme para si mesmo. O cineasta dinamarquês tem em sua filmografia obras como Idioterne (Os Idiotas), Dancer in the Dark (Dançando no escuro) que recebeu a Palma de Ouro no festival de Cannes em 2000 e Dogville que estreou em 2003. Em 28 de Agosto deste ano, Lars Von Trier ressurge com seu polêmico filme AntiChrist (AntiCristo) que impressionou desde o público até jornalistas presentes em Cannes.

Em entrevista dada no festival francês Lars foi criticado quanto ao filme, alguns jornalistas alegaram que o filme estava confuso demais, impossibilitando uma interpretação mais completa da produção. Em resposta Lars disse que não houve outra saída. “Eu não tive escolha. É a mão de Deus, acredito”. Os jornalistas continuaram a questioná-lo, tentando retirar do dinamarquês alguma explicação mais clara sobre a trama, mas ainda assim Lars disse que produz os filmes para si mesmo, e não espera que estes sejam entendidos sempre. “Eu trabalho para mim mesmo, não fiz este pequeno filme para você ou para o público, por isso não acho que devo explicar nada a ninguém”. O filme conta a história de um casal que passa por um momento difícil ao perder um filho pequeno em um acidente domiciliar, contudo ao desenrolar da história percebe-se que existem muitos outros elementos em torno desta morte.

Charlotte Gainsbourg interpreta uma mãe que perde seu filho pequeno em uma queda da janela de sua casa. No momento do acidente, a mãe estava mantendo relações sexuais com seu marido (Willem Dafoe). A partir daí ela sofre um grande choque, e caí em profunda depressão. Seu marido então, tenta utilizar de terapia psiquiátrica para ajudar a mulher a se recuperar, para isso ambos vão passar alguns dias em uma cabana construída no meio de uma floresta, chamada de Éden. Durante a estadia a esposa começa a ter visões e seu estado não parece melhorar, o marido ainda assim persiste na tentativa de tirá-la do estado transtornado em que se encontrava a amada. A obsessão pelo sexo toma conta da mulher, e o que até então deveria servir de alternativa para a dor, se torna agravante para a mesma, gerando mais angustia e sentimento de culpa. O filme não segue uma característica linear, encontrada na maioria dos filmes Hollywoodianos. Cortes e elementos inesperados como os três animais, raposa, veado e corvo que representam os “Três mendigos” e as diversas fotos de mulheres encontradas na casa compõem a estética mórbida e intrigante da obra de Lars.

antichrist

Em muitos momentos a crítica em relação ao filme pode até ser considerada compreensível, uma vez que o diretor não define bem as linhas de desenvolvimento do roteiro do filme o que nos traz a sensação de que partimos de um ponto surpresa, passamos por um momento de muitos insights e chegamos a uma enorme sala enevoada com mais perguntas do que tínhamos no inicio do filme. Mas tudo isso se deve também a necessidade que temos de desenvolver uma postura “hiper-midiática” na hora de assistir a obra. O que quero dizer é que, para que haja um entendimento que consiga ultrapassar o que já é explicado no inicio do filme (a morte do bebe e o trauma dos pais) é necessário que se leia alguns escritos sobre o filme, sobre elementos que o compõem e também o que outras pessoas acharam do mesmo. Não se limitar apenas ao filme, mas buscar conteúdo em textos e tudo mais. Com isso poderiam ser feitas diversas analogias interessantes sobre a trama.

Ao pensar no bebê , que logo de inicio vê os pais durante o ato sexual e em seguida vai para a janela e cai , poderíamos, por exemplo, fazer uma comparação com Freud que diz que a criança nos seus primeiros anos de vida desenvolve um sentimento de posse em relação as mães (no caso de meninas, aos pais , mas isso também pode variar, enfim). Para a criança a mãe é tudo o que ela tem de melhor, alimento, amor, carinho, segurança, etc. Ao ver o pai “em cima” dela, o bebê poderia então ter tido a sensação de perda daquilo que era mais valioso para ele, e então foi em direção a janela, cometer um suposto suicídio. OK, muita psicologia para um bebê bonitinho daqueles não é? Mas vale lembrar que em certo momento do filme a mãe diz que a criança sempre acordava à noite e saia do berço, mas nunca tinha ido na direção da janela antes. Falando da mãe, outro elemento que podemos perceber é o medo que ela tem de ser abandonada pelos “homens de sua vida”. Ela colocava os sapatos invertidos no pé do filho para que este nunca ficasse muito longe dela. E fez quase o mesmo com o marido, mas no caso dele, ela perfurou sua perna e colocou um peso, bem prática ela. A imagem da mulher ali, podia soar como uma vingança pelas intensas perseguições que elas sofreram ao longo da história mundial. A mãe também lutava contra a natureza, que lhe causava medo, ela não entendia como algo pode te dar a vida e sem avisar, a tirava de você. O pai, o marido e, consequentemente, o homem era aquele que mesmo tentando ajudar, mantinha a mulher preza aos seus surtos, sustentava a dor dela com o sexo violento e cheio de rancor que ambos praticavam juntos.

Falando em sexo, com certeza isso foi o que mais chocou a todos. Fato é que violência e sexo são dois pontos os quais o ser humano nunca irá negar o interesse e necessidade em ver ou praticar. Porém, o filme pede em certo momento que nós sejamos capazes de superar as imagens cruas para então perceber qual é o papel do sexo no desenrolar da trama. A mulher se culpa por ter perdido o filho no momento em que estava transando com o marido. Após a morte ela faz sexo, mas de maneira brutal, tentando punir o corpo e a própria mente, é uma mistura clara de prazer, dor, culpa e fuga. Ou podemos dizer que a atitude dela se reflete nos Três Mendigos (Three Beggars), representados pela Raposa, o Corvo e o Veado. Cada um deles está ali como materialização de um sentimento humano, natural e que deve ser compreendido e aceitado. A dor, o desespero e o luto rondam a cabana, sempre lembrando os dois de sua mortalidade enquanto humanos. Ao meu ver, o título AntiCristo faz sentido para mim quando penso que em todo o momento o casal está lutando não para aceitar as leis da natureza, as leis da vida ou pode-se dizer as leis de Deus (talvez daí venha o AntiCristo de Lars) mas sim estão tentando superá-las. A luta ali, é para ir de encontro às leis naturais de vida e morte, mesmo que a causa desta ultima não tenha sido algo fácil de se relevar. Estes e outros fatores me levaram a repensar o filme muitas vezes, e perceber o quão rico ele é , pois a cada releitura você descobre uma nova maneira de interpretar o que é exibido, você acaba tendo uma participação importante no filme. Por isso meus caros, antes de criticar o filme, assistam, reflitam, leiam e então tirem suas próprias conclusões. A minha? Foi esta aí, e provavelmente se assistir mais uma vez, terei outra, e outra, e outras.

Vinicius da Silva Santos (Veny Santos)

Trailer



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7 comentários

  1. A. Mariah comentou:

    Bem-vindo Veny Santos.
    Eu estava lendo sobre a preparação da atriz Charlotte Gainsbourg para o papel principal e foi "punk". A confusão que vemos na tela foi a preparação, com surtos de loucura e exclusão da sociedade.
    Ainda não tive a oportunidade de ver, estou coletando informações sobre o filme, eu adoro ler e depois assistir.

    Boa sorte com a coluna.

     

  2. Felipe_X comentou:

    Legal! Adorei o filme, porém não tinha visto sob a ótica do texto, e tem fundamento. Apesar de que o lance do Lars é dar um fundamento para cada espectador, ou não dar pra nenhum.

    Abraços

     

  3. Vinicius Colares comentou:

    Bem Veny, realmente, cada pessoa retira conclusões completamente diferentes, em boa parte da projeção eu imaginava que o sobrenatural do filme era uma alegoria para as convulsões internas do personagem e o titulo Anticristo tbm fazia parte dessa alegoria, mas depois eu percebi (ao menos foi o que entendi) que Lars Von Trier quis fazer um filme sobrenatural de verdade (é claro que a sua maneira unica), porque o anticristo ATENÇÂO SPOILER é a mulher,você percebeu que perto final do filme, em um flashback, vemos que ela viu o menino subindo a cômoda e caindo, mas não fez nada para impedir, o psicanalista vai descortinando os traumas da mulher até chegar ao verdadeiro eu dela, demoníaco e maligno – ela é o anticristo, que leva o homem ao pecado original; ela o atrai para transar sob a “árvore do conhecimento”. vc percebeu isso, aquela arvore destaca no meio de uma floresta chamada éden?. só que além disso, ele dá a entender em muitos momentos que tudo que estamos vendo não passa de simbolismo, e isso é muito interssante, tbm terei que revê-lo para compreender melhor!

     

  4. Maicon comentou:

    Concordo com o Vinícius.
    Não sei se alguém viu, mas esse filme me lembrou bastante do filme Vinyan, pelo menos até certo ponto.
    Em boa parte do filme parecia que a condição psicológica da mulher era apenas derivada do trauma da perda da criança, mas a verdade é que o fato se estendia, e era fruto, da sua pesquisa acadâmica no passado, pequisa esta que mostrava como na cultura antiga a figura da mulher era associada ao anticristo, tema que ela deveria analisar criticamente para escrever sua tese, mas que de alguma forma modificou seu comportamento. Bom filme em geral, só não curti o fim, o personagem do DeFoe também estava traumatizado, ou o caráter do filme era mesmo sobrenatural?

     

  5. memoriasdaescrita comentou:

    O caráter paranormal atribuído a "anticristo" é explicável à realidade de um ser em depressão: o bebê que se suicida, a mulher e o homem que vivem a dor da perda, cada um à sua forma; a mulher, na overdose de dores incontroláveis; o homem, na tentativa de racionalizar e administrar neuroticamente a própria dor e a dor da mulher. Ambos se retroalimentam pelo sofrimento individual e do conjunto.
    Nunca pensei em ver de forma tão sábia este "cinema do sentir", cuja desordem é própria de uma nova instância de compreensão, ou melhor, de sentimento. Nosso horror é saber que não podemos lidar com o sentimento puro, o anticristo. (Este é desapropriado do ser pelas diversas formas de civilização).

     

  6. Dani B. comentou:

    Fui muito surpeendida por este filme, que catalogado como terror, e só sobre os critérios de rotulação destes filmes poderiamos discorrer por horas, e pelo título, acreditei que iria ver mais um causo de criancinhas nascidas em uma combinação de 3 números 6. Mas não foi nada disso... Já no "prólogo" meu queixo caiu, visto que foi uma das combinações mais espetaculares de som e imagem que já pude presenciar no cinema, a história em sí é muito inquietante e as cenas são mesmo muito cruas. Não é um filme pra quem tem algum apego a tabus. O paralelo entre agressividade e sexo é muito real além de ser muito pertinente a história e as crise de pânico dela são um retrato cinematográfico muito fiel a realidade (falo por esperiêcia própria). De qualquer maneira, acredito que a referência fortíssima ao surrealismo nem mesmo exige que a história faça tanto sentido quanto fez, o que me deixa até confusa quando alguém diz não ter entendido a história, como se esta fosse uma obrigação de qualquer forma de arte, em especial do cinema. Assistir este filme sacode tanto as águas mais de nossos pensamentos mais obscuros que estas permanecem turvas por um longo período. Se me causa quiasquer sensações e se estas duram, não me resta dúvida: estou diante de uma obra de arte.

     

  7. Artur Fox comentou:

    O sexo era sua forma de penitencia? Bem estranho...

    Essa boa resenha me fez me interessar pelo filme.

     

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